Aquele traço selvagem? Talvez ele seja de família
Por AMY HARMON
Publicado: 15 de Junho de 2006
Jason Dallas pensava que sua opção por ações perigosas - gosto pelo esqui fora de pistas (backcountry skiing), mountain bike e carros velozes — fosse "uma coisa de personalidade."
Então ele soube que cientistas do Centro de Pesquisa de Câncer Fred Hutchinson, de Seattle, tinham ligado o comportamento de risco em ratos a um gene. Os que não tinham o gene caminharam e fizeram piruetas, desprotegidos, ao longo de um vareta de aço em vez de se misturar em segurança como outros ratos.
Agora Mr. Dallas, chefe de cozinha em Seattle, está convencido que ele tem uma predisposição genética para o risco, uma conclusão que os pesquisadores dizem não é injustificada, desde que eles acreditam que as variações semelhantes em genes humanos podem explicar por que a gente percebe o perigo diferentemente.
"Isso está no seu sangue," disse Mr. Dallas. "Você ouve as pessoas dizerem isso todo o tempo, mas agora você sabe que é verdade."
Um crescente conhecimento da genética humana está mostrando informações novas do quanto a gente tem de controle sobre quem somos e como atuamos. As descobertas recentes incluem genes que parecem influir se um indivíduo é gordo, tem um dom para a dança ou será viciado em cigarros. Declarações oficiais sobre o poder dos genes parecem estar no noticiário quase diariamente e estão modificando a maneira como os americanos pensam sobre si próprios, suas falhas e seus talentos, bem como as decisões que eles tomam.
>>Leia a reportagem completa
Próximo post: Couples Cull Embryos to Halt Heritage of Cancer
quarta-feira, 16 de abril de 2008
Amy Harmon e "A era do DNA" - parte 2
terça-feira, 15 de abril de 2008
Adrees Latif e a imagem do colega morto
Amy Harmon e "A era do DNA" - parte 1
O Pulitzer é um prêmio que nas últims edições fez escolhas equivocadas, mas este ano parece se redimiu de alguns desses pecados, na categoria "Explanatory Reporting" (algo como Reportagem explicativa), com a premiação da série de reportagens de Amy Harmon, do New York Times, "A era do DNA" ("The DNA Age"). A convergência de ciência e tecnologia nesta área vem provocando uma revolução silenciosa e distante das redações que pode resultar num mundo melhor ou pior no futuro. Apesar de sua importância, pouca cobertura realmente eficiente e desapaixonada ocorreu. Mas a série de Harmon é um alento, porque disseca o que vem sendo feito pelos pesquisadores à luz das pessoas, dos cidadãos que a utilizam para coisas como descobrir sua ancestralidade, prevenir doenças como câncer e até descartar embriões de futuros filhos com possibilidade de doenças hereditárias.
A série de 16 reportagens, que teve a última matéria publicada dia 3 deste mês, se iniciou em 2006, com "Seeking Ancestry in DNA Ties Uncovered by Tests", algo como "Busca de linhagem ancestral em cadeias de DNA descobertas em testes", sobre pessoas que pagam para descobrir suas origens étnicas. Conta a história de Alan Moldawer, que adotou os gêmeos Matt e Andrew ainda garotos. Na hora de os dois irem para a faculdade, Mr. Moldawer achou que identificar a origem deles poderia lhes dar alguma vantagem. O resultado chegou depois do processo seletivo e concluiu que os gêmeos têm genes 9% nativos da América e 11% do nordeste africano, além da linhagem européia. O pai adotivo concluiu que isso poderia gerar algum tipo de ajuda financeira para os garotos.
A pesquisa de ancestrais não é precisa. O DNA que carregamos é o resultado de diluição ao longo dos séculos e pequenos percentuais de cromossomos de outros continentes podem significar nada. Mas desempregados de pele branca em busca de empregos estão usando tal base para conseguir vagas étnicas nos Estados Unidos. Cidadãos de pele negra também estão se valendo da pesquisa para reclamar heranças nos países europeus. Um cristão americano, por exemplo, está utilizando a técnica para reclamar cidadania israelense. Enquanto isso, americanos brancos procuram identificar DNA indígena para receber benefícios concedidos a descendentes de índios.
Para o sociólogo Troy Duster, da Universidade de Nova Iorque, essa onda não está baseada na busca de informações do passado. Para ele, o que as pessoas querem mesmo "é dinheiro e poder". Empresas de pesquisa genética pipocam pelos Estados Unidos. Os preços variam de U$99 a US$ 250, com promessas de revelar as origens de cada um. Uma das empresas líder no sgmento, a DNA Print Genomics, informa no seu site que a técnica é útil para quem "quer validar sua elegibilidade para admissão em colégios e faculdades ou direitos em admissõs baseadas em critérios raciais".
Durante 16 dias, vou postando aos poucos aqui um pouco de cada reportagem de Amy Harmon, traduzindo o que o tempo apertado me permite.
>>Leia a reportagem completa
Continua amanhã com a reportagem "That Wild Streak? Maybe It Runs in the Family", sobre a influência genética na personalidade e na disposição para correr riscos.
quarta-feira, 9 de abril de 2008
Ego sum qui sum
Dois jornalistas dão de cara na rua. Os dois estão cabisbaixos.
– O que é notícia, brother?
– Meu, não sei. Quer dizer, eu achava que sabia, mas acho que desaprendi.
Na faculdade, eles aprenderam que notícia não é tudo que acontece. Atualidade, relevância e outros itens menos votados estão entre as definições para o que pode ser notícia ou não. Mas um é fundamental: o fato, para ser relevante para o jornalismo, precisa produzir significativas alterações na vida das pessoas.
– Você viu as manchetes dos jornais hoje?
– Vi e fiquei assim.
– Efemeridades...
– Lá vem você com esse papo de biba...
– Não, rapá. Tô falando do noticiário. Parece aquela história do ônibus. Tirando o motorista e o cobrador, o resto é tudo passageiro.
Efêmero. [Do gr. ephémeros.] Adj. 1. Que dura um só dia. 2. De pouca duração; passageiro, transitório...
in Novo Dicionário da Língua Portuguesa, de Aurélio Buarque.
– Tá aqui na Folha: "Ministro admite uso eleitoral do PAC".
– Essa aí até passa. A do Estadão foi "Polícia apreende computadores da Casa Civil"...
– Vamos parar. Se chegarmos aos populares, o negócio piora.
– No Agora a machete foi o vídeo do pai e da madrasta da menina...
– Num falei pra parar.
– Tá. Parei. Mas não dá pra mudar a minha natureza.
– Sem querer parafrasear Deus, mas já parafrasenado, Ego sum qui sum.
– É. Aí vale o plural. Somos o que somos, mesmo se trocarmos o jornalismo por outro negócio.
– Vamos fazer uma sociedade?
– Podíamos abrir um boteco...
PS: Ego sum qui sum: Eu sou quem sou, tradução latina do Velho Testamento das palavras de Deus a Moisés no Monte Sinai.
segunda-feira, 7 de abril de 2008
Kucinski e "o colapso da razão ética"
Para quem quer se aprofundar no assunto ética, o livro "O jornalismo na era virtual - ensaios sobre o colapso da razão ética", que reúne nove artigos do professor de jornalismo Bernardo Kucinski, da USP, é um bom caminho. Entre as razões do atual estado da ética nas redações, Kucinski aponta a "fusão mercadológica de notícia, entretenimento e consumo". Outro ponto que ele destaca é, "principalmente, a mentalidade pós-moderna, que celebra o individualismo e o sucesso pessoal".
Um dos capítulos do livro aborda um tema que é tabu entre os jornalistas: "jornalismo e corrupção". Kucinski não doura a pílula e afirma que sempre houve no Brasil uma imprensa "marrom", amparada na compra de matérias e uso de deturpações grosseiras em favor de grupos econômicos e políticos. Vai mais longe. Segundo ele, uma parte dessa prática busca apenas vender mais jornal. "A corrupção é prática sedutora na indústria de comunicação pelo fato de nela se combinar o poder de influenciar politicamente a opinião pública com o poder econômico. Nenhuma outra indústria tem essa característica. É uma prática também comum entre os jornalistas, por sua proximidade no jogo de influência dos poderosos".
Kucinski bate mais fundo e diz que "uma das formas sutis de cooptação dos jornalistas por setores empresariais é a instituição dos ‘prêmios jornalísticos’". Segundo o professor, "esses prêmios são fortes indutores da pauta jornalística e determinam a ocupação dos espaços a partir de interesses dos empresários".
Ficha técnica
Editora: Co-edição editoras Fundação Perseu Abramo e Unesp.
ISBN: 8586469955
Páginas: 144
Ano: 2005
Edição: 1ª
Lingua: Português
Peso: 200 gramas
Fonte: Editora Fundação Perseu Abramo
O assassinato do Código de Ética do Jornalista
Ano passado, o Congresso Nacional Extraordinário dos Jornalistas, reunido em Vitória (ES), aprovou a reformulação do Código de Ética dos Jornalistas, que estava vigente desde 1987. Utilização de câmeras escondidas, manipulação digital de fotos e uso de identidade falsa são práticas corriqueiras do jornalismo que surgiu da revolução tecnológica do final do século 20 e não eram especificamente abordados no código antigo, que em linhas gerais vedava seu uso.
O código que saiu desse encontro extraordinário de agosto de 2007 vai direto ao assunto e proíbe a divulgação de informações obtidas com tais subterfúgios, admitindo que isso só poderá acontecer em caso de "relevante interesse público". O novo texto incluiu sugestões de sindicados do país e de entidades da sociedade civil, num processo conduzido pela Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ).
O objetivo do código é combater o jornalismo denuncista, que costuma julgar e punir pessoas com a execração pública, geralmente sem provas e sem o direito de resposta. O jornalista também pode se recusar a cobrir pauta que vá contra esses princípios.
O noticiário atual sobre diversos fatos da vida nacional para indicar o assassinato definitivo do Código de Ética do Jornalista.
quarta-feira, 2 de abril de 2008
Do jornalismo em escala industrial e outras paradas

Pressionados por jornadas de trabalho cada vez mais excessivas, temos postado pouco no "Jornalismo EmPerfeito". Esta, aliás, é uma característica do jornalismo dos dias de hoje: produção em escala industrial e jornadas idem. Não é "privilégio" de nenhuma mídia especificamente, mas uma tendência de um setor que se sente pressionado pelas novidades que borbulham a todo momento e levam jornais, portais, emissoras etc. a seguir a manada perdida. Alguma luz precisa surgir rapidamente do túnel escuro e tomara que não seja a do trem...
Na ilustração, a carta "o enforcado" do Tarot.
As marcas voláteis da era digital
As marcas, na era da internet, estão mais voláteis. O grupo Globo, por exemplo, depois de torrar muito dinheiro, tempo e esforço no endereço www.globo.com, esta semana começou uma retirada estratégica para o portal de notícias www.g1.com.br. É o caso do filhote que cresceu mais que a mãe. Lançado como alternativa e focada essencialmente no conteúdo noticioso dos veículos da Globo, o G1 passou rapidamente ao posto de campeão de hits brasileiro no setor de portais de notícias. Ainda não se sabe se o globo. com continuará, mas todos os endereços do grupo agora são precedidos do www.g1.com.br.
sábado, 29 de março de 2008
A guerra, a morte e ação dos homens sobre o planeta
Lamento do oficial por seu cavalo morto
Cecília Meireles
Nós merecemos a morte,
porque somos humanos
e a guerra é feita pelas nossas mãos,
pelo nossa cabeça embrulhada em séculos de sombra,
por nosso sangue estranho e instável, pelas ordens
que trazemos por dentro, e ficam sem explicação.
Criamos o fogo, a velocidade, a nova alquimia,
os cálculos do gesto,
embora sabendo que somos irmãos.
Temos até os átomos por cúmplices, e que pecados
de ciência, pelo mar, pelas nuvens, nos astros!
Que delírio sem Deus, nossa imaginação!
E aqui morreste! Oh, tua morte é a minha, que, enganada,
recebes. Não te queixas. Não pensas. Não sabes. Indigno,
ver parar, pelo meu, teu inofensivo coração.
Animal encantado - melhor que nós todos!
- que tinhas tu com este mundo
dos homens?
Aprendias a vida, plácida e pura, e entrelaçada
em carne e sonho, que os teus olhos decifravam...
Rei das planícies verdes, com rios trêmulos de relinchos...
Como vieste morrer por um que mata seus irmãos!
in Mar Absoluto e outros poemas: Retrato Natural. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1983
quarta-feira, 26 de março de 2008
Frases, pra que as queremos?
Frases bem articuladas têm o poder de dizer tudo em poucas palavras.
Aí estão algumas:
"As pessoas valem o que vale a afeição da gente, e é daí que mestre Povo tirou aquele adágio que quem o feio ama bonito lhe parece"
"Suporta-se com paciência a cólica do próximo"
Machado de Assis
"Pelo erros dos outros, o homem sensato corrige os seus"
Oswaldo Cruz
"O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso, existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis"
Fernando Pessoa
"Uma longa viagem começa com um único passo"
Lao-Tsé
"Os ricos transam. Os pobres procriam"
"Comida é bom, bebida é ótimo, música é admirável, literatura é sublime, mas só o sexo provoca ereção"
Millôr Fernandes
" O essencial é invisível aos olhos; só se vê bem com o coração"
Saint Exupéry
"Ou a mulher é fria ou morde.Sem dentada não há amor possível"
Nelson Rodrigues
"Podemos nos defender de um ataque, mas somos indefesos a um elogio"
Sigmund Freud
"Os que fazem amor não estão fazendo apenas amor: estão dando corda ao relógio do mundo"
Mário Quintana
"Nunca faças aposta. Se sabes que vais ganhar és um patife, e se não sabes és um tonto"
Confúcio
segunda-feira, 24 de março de 2008
Reportagem em versos: a experiência baiana
Escrever reportagem em versos é uma prática que nasceu antes da imprensa de Gutemburgue. Relatos de acontecimentos sempre foram contados e cantados em versos, mesmo que os versos não tivessem métrica ou até mesmo rima. Na Bahia, começamos com a carta de Pero Vaz de Caminha ao rei dom Manoel, depois do encontro com a nova terra, no início do século 16. Continuamos com Gregório de Mattos, o Boca do Inferno, no século 17, e no início do século 20 com José Gomes, o Cuíca de Santo Amaro, puxando admiradores e desafetos pelas ruas de Salvador:
"Neste mesmo dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! A saber, primeiramente de um grande monte, muito alto e redondo; e de outras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos; ao qual monte alto o capitão pôs o nome de O Monte Pascoal e à terra A Terra de Vera Cruz!", in Carta ao rei, de Pero Vaz de Caminha
"Ninguém vê, ninguém fala, nem impugna, e é que, quem o dinheiro nos arranca, nos arranca as mãos, a língua, os olhos. Esta mãe universal, esta célebre Bahia, que a seus peitos toma, e cria, os que enjeita Portugal", in Senhora Dona Bahia, Gregório de Mattos
"Esta é uma lição, quem é noivo ou está pra isso, para aquele que é casado. Não vá atrás de lorotas. Quando for durante a noite, tenha muita precaução. Deve ter todo o cuidado com moça que more em Brotas, porque ao contrário tome bem o meu conselho. O sujeito está roubado, porque senão é patota", in A vingança da mulher de Brotas, de Cuíca de Santo Amaro
sábado, 22 de março de 2008
O Jornal Nacional e a consistência da notícia
A dengue explodiu na cidade do Rio de Janeiro e o país tomou um susto, esta semana, quando o Jornal Nacional da Rede Globo expôs o problema. Até então o jornalão limitava-se a notas cobertas, se muito. O JN exige consistência de qualquer fato que coloque no ar. Até esta semana, apenas a população carioca reclamava de uma epidemia da doença na cidade. Os governos municipal, federal e estadual não se pronunciavam ou negavam. Foi preciso que o Sindicato dos Médicos do Rio de Janeiro entrasse com uma ação de responsabilidade contra os órgãos públicos para que o jornalão líder em audiência tivesse a confirmação e destacasse a notícia.
O Jornal da Band, que adota outra metodologia, vinha abrindo espaço há 20 dias para a reclamação dos pacientes nas filas dos hospitais. Não havia números oficiais compilados, os governos se omitiam e os médicos ainda não haviam se pronunciado. O que havia eram filas e mais filas de pessoas com a doença, números aqui e ali. A reportagem da Bandeirantes foi à luta, compilou números extra-oficiais ou de unidades isoladas e começou a mostrar as pessoas.
Fica uma constatação desse fato: o jornalismo não pode ficar a reboque de números oficiais, precisa aprender a fazer contas e a ouvir a voz do cidadão nas ruas.
sexta-feira, 21 de março de 2008
Wolfe e o jornalismo escrito como uma carta
Thomas Kennerly Wolfe, ou Tom Wolfe (à esquerda na capa da Time), como é conhecido, é considerado um dos criadores do New Journalism. Jornalista e escritor, começou a escever seu primeiro livro aos nove anos. Filho de pais abastados, começou profissionalmente como jornalista no Springfield Union, de Massachusetts, passou pelo The Washington Post e New York Herald Tribune, mas sua carreira foi marcada pelo trabalho na revista Esquire.
A relação com a publicação começou quando Wolfe propôs ao editor um artigo sobre a onda de carros customizados no sul da Califórnia. Byron Dobell, que dirigia a revista, propôs que ele enviasse suas anotações para avaliação. Wolfe escreveu uma carta contando como gostaria de escrever o artigo. Dobell só cortou o "Caro sr. Byron" da carta e ela foi publicada na íntegra.
O resultado saiu em 1964 com o título There Goes (Varoom! Varoom!) That Kandy-Kolored Tangerine-Flake Streamline Baby. Provocou ampla discussão, no estilo que depois marcaria sua carreira, com críticos derramando elogios e outros simplesmente execrando o autor. O primeiro livro de Wolfe, The Kandy-Kolored Tangerine-Flake Streamline Babyresultou desse artigo para a Esquire.
terça-feira, 18 de março de 2008
Usuário online responde mais a temas próximos
Na BBC News, na manhã desta terça (18.3), a notícia mais comentada era "Vegan diet 'help' for arthritis", algo como "Ajuda da dieta vegan para artrite". Muito debate já rolou sobre as preferências de leitura do usuário da mídia online, mas não há muito consenso. O que faz uma reportagem como essa provocar o internauta a escrever? Destaque-se que não era a mais lida no momento, mas a que provocou a necessidade de intervenção do leitor. Uma pista poderia estar na proximidade do assunto com as pessoas. No Reino Unido, 350 mil pessoas sofrem de artrite reumatóide.
Obs: O veganismo é montado como filosofia. A dieta é apenas uma parte. Suas escolhas estão baseadas em aspectos sociais e morais, como rejeitar o que muitos chamam de "indústria da morte", com a criação de animais para alimentação humana.
>>>Leia mais
Bandeira e a morte definitiva
A morte absoluta
Manuel Bandeira
Morrer.
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.
Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
A exangue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão - felizes! - num dia,
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.
Morrer sem deixar porventura uma alma errante...
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?
Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
A lembrança de uma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento,
Em nenhuma epiderme.
Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: "Quem foi?..."
Morrer mais completamente ainda,
- Sem deixar sequer esse nome.
domingo, 16 de março de 2008
E o meu medo maior é o espelho se quebrar...
Espelho
João Nogueira
Nascido no subúrbio nos melhores dias
Com votos da família de vida feliz
Andar e pilotar um pássaro de aço
Sonhava ao fim do dia ao me descer cansaço
Com as fardas mais bonitas desse meu país
O pai de anel no dedo, o dedo na viola
Sorria e parecia mesmo ser feliz
Eh! Vida boa quanto tempo faz
Que felicidade
E que vontade de tocar viola de verdade
E de fazer canções como as que fez meu pai
E de fazer canções como as que fez meu pai
Um dia de tristeza me faltou o velho
E falta lhe confesso que ainda hoje faz
E me abracei na bola e pensei ser um dia
Um craque da pelota ao me tornar rapaz
Um dia chutei mal e machuquei o dedo
E sem ter mais o velho pra tirar o medo
Foi mais uma vontade que ficou pra trás
Eh! Vida boa, vai no tempo vai
E eu sem ter maldade
Na inocência de criança de tão pouca idade
Troquei de mal com deus por me levar meu pai
Troquei de mal com deus por me levar meu pai
E assim crescendo eu fui me criando sozinho
Aprendendo na rua, na escola e no lar
Um dia eu me tornei o bambambã da esquina
Em toda brincadeira, em briga e namorar
Até que um dia eu tive que largar o estudo
E trabalhar na rua sustentando tudo
Assim sem perceber eu era adulto já
Eh! Vida boa vai no tempo vai
Ai mas que saudade
Mas eu sei que lá no céu o velho tem vaidade
E orgulho de seu filho ser igual seu pai
Pois me beijaram a boca e me tornei poeta
Mas tão habituado com o adverso
Eu temo se um dia me machuca o verso
E o meu medo maior é o espelho se quebrar
E o meu medo maior é o espelho se quebrar
sexta-feira, 14 de março de 2008
Cibernética: Informação para explicar a natureza
Norbert Wiener (foto) nasceu em 1894 no Estado de Missouri, Estados Unidos, e morreu em 1964, antes da revolução dos computadores. Graduado em Matemática aos 14 anos, já era doutor em Lógica aos 18. Mas o que tem de mais em Wiener? Ele é o reinventor da cibernética (do grego kybernetiké, que significa condutor, governador, piloto). Em 1948, o cientista lançou o livro "Cybernetics" e retomou uma definição cunhadada por Platão, na Grécia antiga, para qualificar a ação da alma.
Até então, fenômenos naturais eram explicados a partir da noção de energia, pilar da física newtoniana. A cibernética revira a explicação e revela que a informação é a base para descrever a natureza. Estudando o tratamento da informação como codificação e decodificação, retroação (feedback) e aprendizagem, entre outros, Wiener percebe que, do ponto de vista da transmissão da informação, não existe distinção entre máquinas e seres vivos.
O conhecimento humano é, na verdade, uma seleção feita a partir do que nos chega por ouvidos, olhos e boca. O volume de informações é tão grande que se não tivéssemos a capacidade de selecioná-las seríamos aniquilados por elas. Isso tudo quer dizer, segundo a cibernética, que a informação tem aspecto estatístico e assim pode ser estudada. O significado das coisas é influenciado pela regulação de um código sobre outro e vice-versa.
E toda essa discussão começou na 2ª Guerra Mundial, quando Wiener e seu colega Julian Bigelow fizeram estudos para aperfeiçoar canhões anti-aéreos. Isso resultou na formalização da noção de realimentação negativa, que foi então utilizada como base para modelos de controle de sistemas artificiais e até do sistema nervoso central.
quinta-feira, 13 de março de 2008
Teoria cibernética da informação
A teoria cibernética da informação, proposta por Norbert Wiener, reconhece dois tipos de 'feedbacks' ou retornos mecânicos. Wiener propõe que o primeiro é aquele em que um esforço é equilibrado pelo seu inverso (auto-regulação). A fórmula seria assim: "quanto mais x, menos y; quanto menos x, mais y". O segundo modelo é o de auto-reforço ou a retroalimentação galopante (quanto mais x, mais y).
Os exemplos estão aí. No primeiro caso, estão a oferta e a procura, de Adam Smith, o rolar do volante ao dirigir e o equilíbrio das bicicleta. O segundo modelo, o do auto-reforço, não existe na natureza, com exceção das epidemias, em que quanto mais pessoas doentes mais doentes teremos, mas está presente na Comunicação.
Nela, temos a auto-regulação e o auto-reforço às vezes aparecendo juntos ou separados. Há duas versões. A primeira, a do círculo vicioso ou virtuoso, é auto-reguladora. É o caso de antiga propaganda de biscoitos, os que "vendem mais porque estão sempre frescos e estão sempre frescos porque vendem mais" (quanto menos, mais; quanto mais, menos).
A segunda, da popularidade ou maldição, é de auto-reforço: "quanto mais, mais" e "quanto menos, menos". Quanto mais pessoas apoiam uma idéia, mais ela cresce. O inverso também é correto: quanto menos pessoas a aceitem, menos chances ela tem de crescer. No jornalismo, a teoria de Wiener é ferramenta de análise do profissional que prescuta a realidade.
quarta-feira, 12 de março de 2008
A serra do Rola Moça
Um poema de Mário de Andrade que parece cordel, parece reportagem...
Mário de Andrade
A Serra do Rola-Moça
Não tinha esse nome não...
Eles eram do outro lado,
Vieram na vila casar.
E atravessaram a serra,
O noivo com a noiva dele
Cada qual no seu cavalo.
Antes que chegasse a noite
Se lembraram de voltar.
Disseram adeus pra todos
E se puserem de novo
Pelos atalhos da serra
Cada qual no seu cavalo.
Os dois estavam felizes,
Na altura tudo era paz.
Pelos caminhos estreitos
Ele na frente, ela atrás.
E riam. Como eles riam!
Riam até sem razão.
A Serra do Rola-Moça
Não tinha esse nome não.
As tribos rubras da tarde
Rapidamente fugiam
E apressadas se escondiam
Lá embaixo nos socavões,
Temendo a noite que vinha.
Porém os dois continuavam
Cada qual no seu cavalo,
E riam. Como eles riam!
E os risos também casavam
Com as risadas dos cascalhos,
Que pulando levianinhos
Da vereda se soltavam,
Buscando o despenhadeiro.
Ali, Fortuna inviolável!
O casco pisara em falso.
Dão noiva e cavalo um salto
Precipitados no abismo.
Nem o baque se escutou.
Faz um silêncio de morte,
Na altura tudo era paz ...
Chicoteado o seu cavalo,
No vão do despenhadeiro
O noivo se despenhou.
E a Serra do Rola-Moça
Rola-Moça se chamou.
terça-feira, 11 de março de 2008
Raulzito: Cowboy fora da lei
Raul Seixas
Mamãe não quero ser prefeito
Pode ser que eu seja eleito
E alguém pode querer me assassinar
Eu não preciso ler jornais
Mentir sozinho eu sou capaz
Não quero ir de encontro ao azar
Papai não quero provar nada
Eu já servi à pátria amada
E todo mundo cobra a minha luz
Oh, coitado, foi tão cedo
Deus me livre, eu tenho medo
Morrer dependurado numa cruz
Eu não sou besta pra tirar onda de herói
Sou vacinado, sou cowboy
Cowboy fora-da-lei
Durango Kid só existe no gibi
E quem quiser que fique aqui
Entrar prá história é com vocês
Mamãe não quero ser prefeito
Pode ser que eu seja eleito
E alguém pode querer me assassinar
Eu não preciso ler jornais
Mentir sozinho eu sou capaz
Não quero ir de encontro ao azar
Papai não quero provar nada
Eu já servi à pátria amada
E todo mundo cobra a minha luz
Oh, coitado, foi tão cedo
Deus me livre, eu tenho medo
Morrer dependurado numa cruz
Eu não sou besta pra tirar onda de herói
Sou vacinado, sou cowboy
Cowboy fora-da-lei
Durango Kid só existe no gibi
E quem quiser que fique aqui
Entrar prá história é com vocês
Eu não sou besta pra tirar onda de herói
Sou vacinado, sou cowboy
Cowboy fora-da-lei
Durango Kid só existe no gibi
E quem quiser que fique aqui
Entrar prá história é com vocês
